Cem anos de Solidão – e paixão

3 ago

Exemplo antológico daquilo que eu considero como “prosa-poética” (obviamente o termo não é meu). Destaque pra construção (cinematográfica eu diria?) da cena. Um sobrinho que nutre uma paixão avassaladora pela tia. A luta entre ambos. Um dos vários exemplos dessa sensualidade divinamente descrita por García Marquez.

“Eram quatro e meia da tarde quando Amaranta Úrsula saiu do banho. Aureliano a viu passar diante do seu quarto, com um robe de pregas delicadas e uma toalha na cabeça como um turbante. Seguiu-a quase na ponta dos pés, cambaleando da bebedeira, e entrou no quarto nupcial no momento em que ela abria o robe e o tornava a fechar espantada. Fez um gesto silencioso para o quarto contíguo, cuja porta estava entreaberta, e onde Aureliano sabia que Gastón começava a escrever uma carta.
– Vá embora – disse sem voz.
Aureliano sorriu, levantou-a pela cintura com as duas mãos, como um vaso de begônias, e jogou-a de frente na cama. Com um puxão brutal, despojou-a do roupão de banho antes que ela tivesse tempo de impedi-lo e se aproximou do abismo de uma nudez recém-lavada que não tinha um matiz de pele, uma região de pêlos, um sinal escondido que ele não tivesse imaginado nas trevas de outros quartos. Amaranta Úrsula se defendia sinceramente, com astúcias de fêmea sábia, esquivando o escorregadio e flexível e cheiroso corpo de doninha, enquanto tentava destroncar-lhe os rins com os joelhos e picava-lhe a cara com as unhas, mas sem que ele ou ela emitissem um suspiro que não se pudesse confundir com a respiração de alguém que contemplasse o econômico crepúsculo de abril pela janela aberta. Era uma luta feroz, uma batalha de morte, que entretanto parecia desprovida de qualquer violência, porque estava feita de agressões contorcidas e evasivas espectrais, lentas, cautelosas, solenes, de modo que entre uma e outra havia tempo para que voltassem a florescer as petúnias e Gastón se esquecesse dos seus sonhos de aeronauta no quarto vizinho, como se fossem dois amantes inimigos tentando se reconciliar no fundo de um lago diáfano. No fragor do encarniçado e cerimonioso forcejar, Amaranta Úrsula compreendeu que a meticulosidade do seu silêncio era tão irracional que poderia despertar as suspeitas do marido contíguo muito mais do que os estrépidos de guerra que tentavam evitar. Então começou a rir com os lábios fechados, sem renunciar à luta, mas se defendendo com mordidas falsas e desesquivando o corpo pouco a pouco, até que ambos tiveram consciência de ser ao mesmo tempo adversários e cúmplices, e a brigas degenerou numa excitação convencional e as agressões se tornaram carícias. De repente, quase brincando, como uma travessura a mais, Amaranta Úrsula descuidou da defesa e, quando tentou reagir, assustada do que ela mesma tinha feito possível, já era tarde demais. Uma comoção descomunal imobilizou-a no seu centro de gravidade, plantou-a no lugar, e a sua vontade defensiva foi demolida pela ansiedade irresistível de descobrir o que eram os apitos alaranjados e os balões invisíveis que a esperavam do outro lado da morte. Mal teve tempo de esticar a mão e procurar às cegas a toalha e meter uma mordaça entre os dentes, para que não saíssem os gemidos de gata que já estavam rasgando as suas entranhas.”

Gabriel García Márquez – “Cem Anos de Solidão”

 

(Não Identificado) I

13 jul

Esse ano, especialmente quando da volta das férias, coisas se esgotaram em mim. Desde o plano pessoal (mas isso, por ora, não importa) até mesmo, os eventos culturais (ou vadiais, diria minhas tias). Mas, enfim, andei escutando/baixando discos a doidado, lendo bastante sobre também e escrevendo (mal, como nunca). O post anterior foi o primeiro dessa fase. Sempre deixo claro (quando são os outros que me falam sobre eu digo logo quem foi, já que é comum não fazerem o mesmo comigo) meus indicantes.

Mais uma vez enfim, enfim, curiosamente me aproximei bastante de Bowie, não tanto do glam-Bowie, que foi a parte inicial que me fez admirar o trabalho dele, mas do Bowie-Berlim, da fase Brian Eno, digamos assim. Especialmente o “Low” e toda aquela sensualidade melódica (ou sabe lá o que tal termo signifique), é escutar e reconhecer o disco como o melhor trabalho do cara, tanto pelo empenho, quanto pela inventividade.

Em Arcade Fire, após escutar com mais apuro, vi que o Neon Bible é o melhor. É mais completo, tem uma temática mais bem elaborada. Diferentemente do The Suburbs, que a cada ouvida piora no meu conceito, deixe ele quieto lá, é melhor.

Os Strokes, putz, decepcionaram feio com o Angles, especialmente por ser um álbum que não dá pra escutar mais. É uma coisa que já tá com cara de velho, de enjoativo. Espero que a banda supere seus demônios e lance coisas melhores a partir de então.

Radiohead, fez bem eu ter ligo alguns textos no Scream & Yell sobre os discos da banda. Não tinha sacado o quanto o OK Computer é algo imbatível em uma década tão forte quanto a de 90. O novo é fraco, mas isso todos vocês já sabem…

Gal e Caê. Putz, não sabia a paixão que o Fa-Tal, da Gal, ia me dar quando vi o China falar dele na MTV. É um álbum que tem muito sentimento nele, e eu vou com muito sentimento quando vou o escutar, também. Caê eu meio que dei um tempo, escutava bastante antes da fatídica queima do HD anterior. Adoro-o também como pessoa, suas opiniões diretas e inteligentes.

Cat Power, talvez a cantora que mais tenho o prazer em ouvi-la cantar. Para além de duas músicas (The Greatest e Metal Heart) eu percebi que o grande trabalho dela é o You Are Free, mas sofrido, mas duro de se ouvir, mais denso, mais Cat Power.

Conheci o Neutral Milk Hotel, o que foi espetacular. Me aventurei sem muita responsabilidade em lances psicodélicos e/ou dos anos 60/70 (como queria tá lá), desde o primeiro e ótimo disco do Pink Floyd (cês sabem que eu detesto essa porra de rock progressivo), no The Doors que é uma puta banda, adorei o Cosmo Factory do Creedence, vi o quanto os Stones são explosivos no Let in Bleed. Além de que comecei a pescar algumas coisas, lendo mais do que escutando, é fato, sobre a psicodelia aqui no Brasil (me arrisquei até a escrever algo, sobre o Flaviola e o Bando do Sol) e um pouco de jazz/blues (que cult não? ). Uma sopa, a se formar, diga-se. O processo é contínuo, é igual começar a ver filmes, anos depois o resultado sai, você cria uma opinião própria, aprende a entender melhor às coisas.

O mesmo aconteceu sobre Engenheiros do Hawaii. A qualidade da banda, é sabido, muitas vezes foi tomada por conta do rentável e pop (ular) Acústico MTV. Lendo a biografia da banda, especialmente o Pra ser Sincero, vê-se que Gessinger é uma cara mal interpretado muitas vezes (agora, quando fui pesquisar a escrita de seu nome no google tava lá “Gessinger frases”, essa coisa de arrancar frases isoladas de um artista diz muito sobre muita gente internet afora…Mas, enfim, a biografia e quem a me emprestou, conseguiram me abrir os olhos para álbuns, posturas e aspectos da banda que eu não percebia. E, na verdade, aquilo que Gessinger fala no primeiro livro sobre a cena musical e a indústria do entretenimento no Brasil é por demais importante.

Enfim, teria coisas pra falar sobre literatura e até mesmo cinema, mas fica pra uma próxima coragem (risos).

Música – Março, 2011

30 mar

Los Hermanos“4″ (2005)

Com letras mais melancólicas, e bem diferente do que fora o “Ventura”, mostra um amadurecimento poético tão interessante quanto. Certamente há de se destacar a beleza de canções como: “Morena”, “O Vento” e “Paquetá”.

Pulp – “This Is Hardcore” (1998)

Banda por demais interessante que Taís, uma colega minha, quase que me intimou a ouvir. É uma espécie de elo entre o brit-pop (pensei logo em Blur), mas tem muito de Glam mesmo. Mas algo nesse álbum realmente soa como soturno mesmo. “The Fear” com seu ar pesado e final espetacular me chama atenção, até mais do que a excelente faixa-título “This Is Hardcore”. E, nossa, a capa é um espetáculo.

Caetano Veloso – “Transa” (1972)

Considerado por muitos como o melhor álbum do baiano. Jards Macalé foi o responsável pelos arranjos. Começa com a poderosa “You don’t know me”, seguida de “Nine Out Of Ten”, um evento, mistura poderosa de jazz com Raggae. Transando entre gêneros, tal como grande idealista do tropicalismo, o disco, certamente marca uma nova fase de afirmação da música do cantor em seu exílio na Inglaterra. Obra que seguiria bem no álbum seguinte, “Araçá Azul”.

RadioheadThe Kings Of Limbs (2011)

Sou taxativo: prefiro os dois primeiros Radiohead e o estilo onde a letra tinha mais importância. De uns tempos pra cá o flerte radical com o post-rock deixou o som da banda uma repetição de uma batida só muitas das vezes, não sei, vai ver não é, mas não me agrada. “Lotus Flower” é maneira e tal, embora tenha um clipe de gosto bem duvidoso.

The Strokes – Angles (2011)

Só de os caras voltarem já valeria à pena. Mas o Angles é um tanto desengonçado no conjunto e visivelmente aquém do que uma banda com dois álbuns iniciais tão bons consegue fazer. “Games” e You’re so Right” são embustes que certamente figuram como micos da banda. Nada que tire o brilho das ótimas “Machu Pichu”, “Two Kinds of Happines”, “Taken For a Fool” e do single grudento “Under Cover of Darkness”. Mesmo com os porém, contudos e entretanto, ainda figura melhor que muita coisa por aí, principalmente em colocar algo diferente.

The XX – The XX (2009)

Taís me disse acertadamente, que o álbum é daquelas sexy-music. O duo de vozes fluem de forma interessante alinhadas com o silêncio proporcionado pela pouca quantidade de camadas sonoras. Faixas interessantes e cativantes como Islands e Crystalised mostram que sem muita estripulia da pra se fazer música interessante.

 



Desejo e Obsessão

3 mar

Desejo e Obsessão é um filme cronenberguiano por excelência, sobretudo se compararmos com uma obra-prima do porte de Crash. O transtorno sexual é visto como uma doença, como um vício, mais ainda, a narrativa fragmentária de Claire Denis sugere que todo esse processo se deu por conta de um erro científico, mas um tema caro a Cronenberg. Entretanto, tanto a Fotografia sensorial, quanto a forma de filmar os corpos, quase que investigando pele e anatomia daqueles, talvez sirva pra demonstrar que Denis busca marcar ponto com as estéticas do cinema contemporâneo.

Shane (Vincent Gallo) e June Brown (Tricia Vessey) são dois norte-americanos recém-casados que estão em viagem a Paris. Shane parece um homem atormentado, tomado por um incontrolável apetite sexual e, por isso, está procurando desesperadamente um velho conhecido: Léo Semeneau (Alex Descas), um médico francês com quem trabalhou em perigosos experimentos sobre a libido humana. Dr. Semeneau. Este, por sua vez, persegue Core (Béatrice Dalle), sua insaciável esposa, que fugiu do quarto onde era mantida presa.

Se em “Crash” a doença/vício dos personagens vem de provocar e participar de acidente de automóveis, mesmo que, e sobretudo se, isso resultasse em fraturas, perfurações e de, em seguida, fazer sexo. Em “Desejo e Obsessão” vemos dois personagens que provavelmente tendo participado de misteriosos experimentos sobre a libido, passaram a sofrerem distúrbios sexuais extremos, levando até mesmo ao canibalismo. Em ambos, os processos, os vícios se interligam.

Filme sobre a carne que atende a impulsos fora da racionalidade,  filme à flor da pele, cinema sensorial, onde transita por um clima ao delicado (destaque para a bela e discreta música de Tindersticks que acompanha todo o filme) e bestial, onde se fala muito pouco, se age muito pouco, mas quando se fala ou se age, é de uma vez por todas.quando os impulsos de suas feras parecem tomar o mote narrativo em uma explosão poucas vezes vistas de gore e sexo. Obra-prima do cinema francês recente, o olhar aflito da esposa de um dos canibais ao final do filme sugere toda uma gama de possibilidades, nem de todo confortantes, algo que Cronenberg certamente aprovaria.

Scanners – Sua mente pode destruir

2 mar

Scanners pode muito bem ser visto como um filme acertivo sobre a paranóia da Guerra Fria. Entretanto, se nas entrelinhas pode surgir esse tipo de possibilidade, o filme trata diretamente de temas caros a Cronenberg. Nesse sentido, uma das cenas iniciais do filme, onde um scanner explode a cabeça de um voluntário em uma audiência sobre possíveis poderes telecinéticos de algumas pessoas, cabe bem pra demonstrar em que caminho estamos.

Scanners segue um esquema narrativo básico, o bem contra o mal, desde o começo. Criados em laboratórios, , os Scanners são pessoas com extraordinários poderes telecinéticos. Dentre toda a população da Terra, 237 são Scanners, humanos que por causa de uma droga que foi tomada na gestação têm poderes mentais muito fortes, capazes de controlar os outros e até explodir a cabeça dos inimigos.O filme conta a batalha que se estabelece quando algumas dessas pessoas passam a utilizar seus poderes de maneira destrutiva e eles só podem ser detidos por alguém que tenha os mesmos poderes. É, portanto, uma temática corrente em Cronenberg, um cientista tentando resolver um problema que ocorrera com uma experiência sua, tentando concertar algo que perdeu seu controle: o mau uso da ciência.

O filme segue o scanner do bem Cameron Vale que é treinado pelo cientista fundador do projeto Scanner, Dr. Paul Ruth, para impedir que o scanner do mal Darryl Revok concretize suas idéias contra a humanidade. Reviravoltas vem e vão, até o previsível encontro entre os scanners Cameron e Revok.

Cronenberg cria um clima de tensão e espionagem que tem como centro a análise do processo em que seu “herói” é inserido, como Cameron lida com as descobertas, como ele se vê diante da descoberta de sua condição. Embora irregular em algumas cenas, o tenso confronto final com direito ao gore pra fã nenhum botar defeito, faz do filme algo interessante, algo que lança uma semente temática interessante, melhor explorada em filme subseqüentes, como The Fly e Videodrome.  Com Scanners, David Cronenberg conseguiu abrir as portas de estúdios maiores para sua ousada filmografia. Filme interessante, escatológico, amedrontador, sobre o humano, sempre.

Videodrome

1 mar

A proximidade assumida com o gênero B nessa ficção científica de terror com forte crítica social, nos faz aproximá-lo imediatamente de They Live, do Carpenter. Ambos, guardadas as devidas proporções, partem rumo a uma análise crítica dos meios de comunicação que se revelará visionária, sobretudo se pensarmos a atuação imbricação em que o processo se meteu.

Max Renn é dono de uma pequena emissora de televisão onde exibe filmes pôrno , tanto sexo leve quanto “hardcore”, muito violentos. Dono de uma polêmica em volta de seu canal, Max é criticado por todos os meios, principalmente o televisivo. As pessoas ficam divididas entre o que é lícito de se mostrar num canal de TV e o que não é. Interessante, tal discussão parece ter gerado seguidas polêmicas na América dos anos 80, pensemos em outros filmes que embora diferentes de Videodrome, e feitos em outra época, trabalhavam a reação da sociedade à invasão da pornografia como algo facilmente consumido: Boogie Nights e O Povo contra Larry Flynt.

Nesse interim, Max encontra um tipo de filme em que o que se vê na tela (estupros, torturas, agressões) não é encenação, tudo realmente acontece . Fascinado por esses videos, Max  procura Nikki Brand, uma famosa apresentadora de rádio para saber mais sobre eles. Os dois acabam desenvolvendo uma relação de amor e de fascinação por esses vídeos, que vão acabar levando a personagem Nikki a desaparecer. Max então procura o Dr. Brian O’Blivion (oblivion = esquecimento), um profeta da televisão que prega que a emissão de raios catódicos leva o homem a um estágio maior de evolução.

Videodrome não é só um programa bizarro envolvendo sexo e porrada, mas também uma experiência que provoca danos no cérebro, tumores. Esses tumores geram alucinações terríveis. O processo começa a atingir Max, que se vê em uma organização com intenções bem mais discutíveis do que ele supunha. Daí que o interessante é perceber como nesse clima alucinógeno criado por Croneberg instalam-se, ao mesmo tempo, perspectivas de suas duas fases, ao mesmo tempo que  vemos o mal interior  externado fisicamente, através de deformações da carne, vemos também, um processo de definhamento psicológico de nosso personagem, com uma previsão de futuro não menos que apocalíptica.

Videodrome é visionário por se tratar de  uma das primeiras tentativas de dar analisar os efeitos da televisão e da crescente cultura do vídeo.  A exposição à violência e à sexualidade e o culto à ciência teriam um papel banalizador à idéia de humanidade, resultando em patologias complexas e agonizantes. Muito embora seja surja certo pessimismo em Videodrome, decorrente de seu final, o filme de Cronenberg é um veículo que reflete acerca da Ciência, não como um problema, mas sim como algo que necessita de reflexão, de apresso por parte de quem a utiliza.

 

 

O Vencedor

27 fev

Realmente, o eixo central de O Vencedor não é o boxe, como muitos andam dizendo. Mas sim, a questão da presença da família na vida do protagonista. Na questão de como Mickey Ward concilia interesses profissionais e fidelidade familiar. Embora a direção extremamente irregular de David O. Russell não permita que o filme alcance vôos maiores, fica um filme interessante, sobretudo graças a simpatia dos conjunto de atores.

Uma questão problemática na obra se dá pela inserção de imagens ao estilo televisivo, inclusive com narração de lutas e tudo mais. Problemática no sentido da confiabilidade de tal recurso como forma de emocionar o espectador. Afinal, já conhecemos o quão foi difícil para Mickey Ward chegar até ali. Sabemos o tanto de responsabilidade que ele carrega nas costas, o quanto ele é chamado de perdedor na sua cidade.

Como já dito, é um filme de atuações. Christian Bale interpreta Dick, o irmão viciado de Mickey. Um cara que era o orgulho de sua cidade – embora esse passado tome uma posição ambígua em sua vida, já que pra muitos sua grande vitória se deveu menos a méritos seus e mais a um escorregão de seu adversário -, e que agora vê no irmão um motivo de esperança, de ser o que ele não foi, de ser campeão mundial.

Melissa Leo, sempre muito versátil, faz a mãe dos caras. Perua, barraqueira, é, ao mesmo tempo, uma mãe protetora, que pensa em determinado nome, costumes e na união da família fanática por boxe. A atuação impressiona justamente por essa dinâmica que a atriz dá a personagem, sem impor maiores afetações.

Injustiçado em toda sua carreira, justamente pelo fato de que o público não entende o seu tipo de personagem, o seu tipo de atuação, o ex-rapper, Wahlberg, é o protagonista Mickey. Não deixo de pensar o quão correta é sua atuação, o quão acertiva foi sua escolha para o papel.

No mais, O Vencedor não é uma obra-prima. É, certamente, um bom filme, é interessante acompanhar a escalada de Mickey, como o é acompanhar a trajetória de tantos e tantos ídolos que o esporte tem. Esse tipo de magia está lá no filme, claro. Mas, seu norte é a relação da família Ward com o boxe. Quesito que o filme de Russel ganha destaque sem que precisasse de muita coisa.

Gêmeos – Mórbida Semelhança

25 fev

Dois irmãos gêmeos Elliot e Beverly Mantle (interpretados por Jeremy Irons), são conceituadíssimos ginecologistas, especialistas no ramo da fertilização feminina. Embora com personalidades bem distintas – Elliot é sedutor, negociante, irreverente; Beverly (que tem nome de mulher, como lembrará a mulher pelo qual ele se apaixonará) é calmo, tímido -, são próximos ao ponto de terem suas vidas interligadas. Trocam de lugar à vontade, se revezando em aparições públicas, cirurgias e, até mesmo, compartilhando as mulheres que se envolvem. Suas personalidades complementam-se. Dão a medida exata do brilhantismo dos dois, compondo praticamente um único indivíduo.

Em Gêmeos, diferentemente dos filmes anteriores de Cronenberg, as mutações se dão no interior dos corpos, na psique de seus personagens. Nesse sentido, a forma como Cronenberg conduz as mutações psicológicas dos gêmeos Mantle será uns dos grandes trunfos da carreira do diretor.

Beverly, o tímido, se apaixona por uma cliente,Claire Niveau (interpretada por Geneviève Bujol), atriz, prosmíscua e que não pode ter filhos. Uma relação quente, tórrida, um jogo de sexo distante daquilo que Beverly, o assexuado (aquele que, segundo seu irmão, só transou por intermédio dele), estava acostumado. Eis que ai surge um tema caro a Cronenberg, já que o cientista não consegue controlar sua mutação, seu processo, sobretudo se pesarmos que Beverly fica viciado em drogas – butazamina, prescrita por Elly. O diretor observa os efeitos desse processo no corpo, ou melhor, como já dito, nessa nova fase de Cronenberg, na mente do personagem. O surgimento dessa nova personalidade de Beverly coloca em crise a harmonia psicológica dos gêmeos.

Um filme maduro, que utiliza de uma linguagem clássica, não vemos maneirismo relativos à forma, mas sim uma sóbria elegância no filmar, uma complexidade psicológica poucas vezes vistas no cinema, tudo bem harmonizado com uma excelente atuação de Jeremy Irons (a melhor de sua carreira repleta de fracos papéis), além de uma bem colocada trilha sonora. Um belo filme, onde a forma atua para compor a proposta do filme, nunca ser aquilo que o filme tem para exibir.

Tempo, vida, viver.

7 fev

“Ele pensa que a vida ficou pra trás
Então finge que nem liga que tanto faz
Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais

E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar

Ele agora vê que o tempo é uma ilusão
E o passado são as linhas em suas mãos
Ou não, ou não, a vida é muito mais
Que os dias, que os deuses, que jornais

E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar

Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais”

A verdade sobre o Tempo – Pato Fu


Tags:

Drummond

1 fev

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Também Já Fui Brasileiro  - In: Alguma Poesia

Um cara que eu cheguei a ler com um afinco especial nos meus tempos áureos de leitor – no Ensino Médio. Por razão inexplicável, voltei a folhear despretenciosamente o poeta mineiro, tido por muitos – de seus pares, inclusive – como o maior “arquiteto” da poesia brasileira.

 

Tags:

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.